Análise da rentabilidade de projetos de investimento
Cash Flows
Representação de um projeto de investimento
- Uma sequência de fluxos financeiros (cash flows) usualmente anuais, sendo o primeiro período o período atual, período \(0\):
| Período | 0 | 1 | 2 | 3 | ... | n |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Cash flows | \(CF_0\) | \(CF_1\) | \(CF_2\) | \(CF_3\) | ... | \(CF_n\) |
- Estes cash flows, ditos totais, correspondem, por sua vez, a dois grandes grupos: CFI (Cash flows de investimento) e CFE (Cash flows de exploração)
Cash Flows de investimento (CFI)
Subdividem-se em:
a) Despesas de investimento em capital fixo (Capital Expenditures);
b) Investimento em fundo de maneio de exploração (Change in Noncash Working Capital);
c) Valor residual do investimento.
Assim:
a) Despesas de investimento em capital fixo
-
correspondem ao primeiro ou primeiros cash flows e são negativos, uma vez que são saídas de dinheiro;
-
despesas de investimento em ativos fixos tangíveis (terrenos, edifícios, equipamentos) e intangíveis (software, licenças e patentes).
b) Investimento em fundo de maneio de exploração
-
fundos necessários para constituição e reforço de inventário de matérias-primas ou mercadorias, ou para financiar os custos com os produtos vendidos a crédito num dado ano, deduzidos do montante obtido por crédito dos fornecedores;
-
sendo saídas de dinheiro, os valores dos cash flows são negativos;
-
o investimento em fundo de maneio necessário de exploração pode ser calculado como a diferença entre as variações de ativos e passivos correntes, de curto prazo:
c) Valor Residual do Investimento
-
No final do tempo de vida do projeto, o valor das despesas de investimento em capital fixo que seja recuperável constitui um cash flow positivo, conhecido como valor residual do investimento;
-
A venda no fim do seu tempo de vida de um dado ativo fixo origina geralmente um ganho ou uma perda extraordinários (uma mais ou uma menos-valia).
-
Se a empresa for lucrativa este valor vai ter impacto fiscal, pagando-se mais ou menos imposto.
-
Assim, calcula-se o VALOR RESIDUAL LÍQUIDO DE IMPOSTOS (\(VR\)):
onde:
Cash Flows de exploração (CFE)
- Os Cash Flows durante a fase de exploração (passada a fase inicial de investimento) serão habitualmente positivos se o projeto for lucrativo.
Onde:
EBIT (Earnings before interest and tax) \(=\) Resultados Antes de Juros e Impostos (RAJI) \(=\) Resultados Operacionais
Note
Considera-se aqui o EBIT x (1 - tx.imposto) = resultado operacional líquido de impostos, em vez de EBT x (1 - tx.imposto) = Resultado Líquido do Período, para não deduzir os custos financeiros de financiamento que aparecem como taxa de juro na taxa de atualização dos cash flows. Isso é coerente com o facto de se considerar o montante total do investimento e não só a parte financiada por capitais próprios.
Note
Quando temos um EBIT negativo, e vamos cálcular \(EBIT \times (1-\text{tx.imposto})\) como procedemos?
Exemplo: \(\text{tx.imposto} = 25\%\) e \(\text{EBIT} = -30.000\)€
a) Tratando-se de uma empresa, o pressuposto geral é que com resultado (EBIT) negativo não há imposto, ou seja ele é zero \(\implies\) \(EBIT \times (1-\text{tx.imposto}) = -30.000\)€.
b) Se o EBIT é negativo, mas se trata de um projeto implementado por uma empresa lucrativa apesar do projeto, então para calcular o EBIT líquido e o seu cash flow, o imposto tem que ser calculado e neste caso ele é negativo. \(EBIT \times (1-\text{tx.imposto}) = -22.500\)€
Ou seja, a empresa pagará menos impostos. Há obviamente um contributo positivo para o cash flow do projeto porque essa diferença corresponde a um benefício fiscal que contará assim positivamente no projeto.
Ver Exercício 1 para exemplo de cálculo do mapa de cash flows de um projeto.
Taxa de atualização
Tendo por base o Exercício 1 sabemos como calcular os cash flows de um projeto.
No entanto, na Avaliação de Projetos de Investimento estamos confrontados com a necessidade de comparar Fluxos financeiros aplicados numa fase inicial (hip. ano \(0\)), com Fluxos gerados nos anos seguintes (anos \(1, 2, 3 , 4, ...\)).
A solução é atualizá-los, dividindo cada \(CF_j\) (cash flow do período \(j\)) por \((1 + r)^{j}\), ou seja, \(\frac{CF_j}{(1 + r)^{j}}\), onde \(r\) é a taxa de atualização.
Ver Exercício 2 para consolidação do conceito de avaliação de projetos e a taxa de atualização.
Ver Exercício 3 para introdução da taxa de atualização no Exercício 1.
Mas qual deverá ser a taxa de atualização \(r\)?
-
As taxas de atualização são em geral nominais, aplicadas a cash flows a preços correntes.
-
Quando os cash flows são reais ou a preços constantes, utilizam-se taxas de atualização reais, calculadas de acordo com o que vimos anteriormente:
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A determinação das taxas de atualização deve ter em conta o risco associado ao investimento.
-
As taxas de atualização exprimem o custo de oportunidade do capital ou seja, o rendimento que o investidor pretende tendo em conta o risco do investimento. O investidor exige receber pelo menos a taxa que obteria em investimentos alternativos com o mesmo grau de risco.
-
A taxa de atualização de um projeto financiado só com capital próprio deve corresponder à soma de:
-
rendimento esperado de activos sem risco (rendimentos previsíveis a priori com precisão, como a remuneração dos títulos de dívida do Estado, geralmente mais elevada que a dos depósitos bancários)
-
com um prémio de risco inerente à atividade económica em causa e ao risco financeiro associado ao grau de endividamento da empresa.
-
-
Exemplo:
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A taxa de juro sem risco (obrigações do tesouro) = \(2\%\)
-
Se o risco inerente a um projeto \(x\) = \(5\%\)
-
Então a taxa de atualização deveria ser: \(r = j_{sr} + P_r = 7\%\)
-
\(j_{sr} -\) taxa de juro sem risco (obrigações do tesouro)
-
\(P_r -\) prémio de risco
-
-
Quando, como é comum, houver financiamento também com capital alheio, dívida (p.ex, bancária ou obrigacionista), a taxa de atualização deve incorporar também a taxa de juro da dívida líquida de impostos, uma vez que as empresas podem deduzir aos resultados os juros pagos e com isso pagar menos impostos.
-
Nesse caso (de financiamento misto), a taxa de atualização deve ser igual ao custo médio ponderado do capital (\(\text{CMPC}\)), sendo a ponderação dada pelas percentagens dos dois tipos de capital, calculadas ao valor de mercado:
Ver Exercício 4 para exemplificação do cálculo da taxa de atualização.
Ver Exercício 5 para exemplificação e consolidação do cálculo da taxa de atualização.
Ver Exercício 6 para exemplificação e consolidação do cálculo da taxa de atualização.
Critérios de análise da rentabilidade dos projetos
Ver Análise financeira para Ideias de Negócio | UAi Knowledge, 26.jul 2021 para vídeo explicativo sobre critérios de análise da rentabilidade dos projetos.
O Valor Atual Líquido (VAL)
O cálculo do VAL consiste na soma de todos os cash flows \(CF_{k}\) do projeto devidamente atualizados:
onde:
-
\(k\), refere-se habitualmente a um ano, embora seja possivel outra periodicidade, desde que seja coincidente com a periocidade da taxa de atualização;
-
o período inicial é \(0\).
Baseados no \(\text{VAL}\), podem-se enunciar duas regras de decisão:
-
Caso de um único projeto: Se \(\text{VAL}(r)>0\) \(=>\) Projeto Rentável à taxa de atualização \(r\) (ou seja, há um acréscimo de valor para a empresa face ao custo dos recursos financeiros envolvidos);
-
Caso de dois ou mais projetos: Entre dois projetos \(A\) e \(B\), se \(\text{VAL}_A > \text{VAL}_B\), Projecto \(A\) é preferível a Projecto \(B\).
Ver Exercício 7 para exemplificação do cálculo do \(VAL\).
A Taxa Interna de Rentabilidade (TIR)
Calculado a par do \(\text{VAL}\), é outro indicador de rentabilidade. Corresponde à taxa de atualização \(r\) para a qual o \(\text{VAL}\) é zero.
-
Calcula-se iterativamente;
-
Aceitar um projeto com \(\text{VAL}(r)>0\), dada a taxa de atualização \(r\), é equivalente a aceitá-lo quando \(TIR>r\)
Problemas no cálculo e na utilização da TIR
-
Pode existir mais do que uma TIR. É o caso, por exemplo, da existência de cash flows negativos intermédios ou finais (investimentos não convencionais), causados, nomeadamente, por necessidades de reinvestimento ao longo do projeto;
-
Pode não existir TIR;
-
A TIR é inadequada para projetos mutuamente exclusivos (i.e., em que só podemos fazer um deles, quer por limitações de recursos financeiros quer por limitações fisicas). Nesse caso, a seleção de projetos com base na TIR, é uma escolha muitas vezes errónea.
Ver o Exercício 8 que ilustra esta última situação, ou seja, que a TIR é inadequada para comparar projetos mutuamente exclusivos.
Período de Recuperação do Investimento (PRI, ou Payback Period)
Tempo necessário para que os cash flows atualizados gerados pelo projeto igualem (recuperem) o capital investido inicialmente. Mede portanto a rapidez de recuperação do capital inicial investido.
onde:
-
\(CF_k =\) cash flow do período \(k\);
-
\(PB =\) múmero de períodos do Payback;
-
\(r =\) taxa de atualização.
Outra fórmula:
Ver Exercício 9 para exemplificação do cálculo do \(PRI\), ou Payback Period.
Se os cash flows acumulados nunca passarem a positivos o projeto não é rentável, sendo o PRI superior à vida útil do investimento.
Índice de Rendibilidade (IR)
Um projeto considera-se aceitável (viável) quando \(\text{IR}> 1\)
Trata-se de medir o valor atual (\(\text{VA}\)) gerado por unidade monetária investida.
Tal como acontece com a \(\text{TIR}\), o \(\text{IR}\) é inadequado para comparar projetos mutuamente exclusivos (i.e, em que só podemos fazer um deles).
Ver Exercício 10 para exemplificação do cálculo do \(IR\), e o problema idêntico ao \(TIR\) com investimentos mutuamente exclusivos.